Atitudes e Comportamentos do Pescador Versus Factores Sorte/Azar

Texto: Ernesto Lima
Fotos: Autor

A jornada de pesca chegou ao fim, ruma-se ao porto, pensamentos sobre os resultados do dia, e o que a eles levou, envolvem-nos, como que prolongando o prazer de mais uma deliciosa jornada e, quase inconscientemente, fazemos comparações com resultados, melhores ou não tão bons, de outras jornadas, em épocas idênticas, nos mesmos pesqueiros, ou em outros.

Não sei se acontece convosco, mas comigo sempre assim terminam as jornadas de pesca, sendo que tais pensamentos se prolongam, em análises e reflexões contínuas, até que volto para a família e outros afazeres, tornando a assolar-me nos tempos livres, em seco.

Muitos dos pensamentos, análises e reflexões referidas, têm sido partilhados convosco através das linhas que vou escrevendo, espalhadas no tempo, mas, de vez em quando, importa dar-lhes uma orientação, como direi…, talvez mais prática.

Na última de três saídas de pesca com pessoal amigo, relativamente iniciado nestas lides, em que as pescarias foram bastante regulares, em qualidade e quantidade, quando navegava para o porto dei comigo a pensar que para além destas assim terem corrido, também as anteriores, desde Julho/Agosto, assim como muitas outras, principalmente quando a frequência de pesca é mais assídua, se têm revelado, com algumas excepções, normalmente produtivas.

Tais pensamentos levaram-me, logo em seguida, para questões relacionadas com os factores sorte e azar, muito badalados nesta nossa actividade, fazendo-me inicialmente pensar que sou um “sortudo”, o que de facto tenho sido, com a saúde e a hipótese de pescar assiduamente, mas, no que respeita a capturas, já não acredito tanto, pois seria muita sorte junta.


Então, lembrei-me que muita da minha “sorte” na pesca, poderá estar sediada nas Atitudes e Comportamentos, os quais têm vindo a ser afirmados em muitos dos escritos que por aqui tenho produzido, parecendo-me no entanto carecerem de reflexão específica, ordenada e prática, para melhor entendimento, meu, e de quem lê o que escrevo.

No sentido de identificarmos alguns conceitos, analisemos algumas frases, normalmente ouvidas em conversas habituais em círculos diversos de pescadores…

“… para mim o que interessa é ir pescar. Se der, deu, se não der, logo dá para a próxima”.

Esta dá para tudo…

Ouve-se muito a pescadores que vieram de papo cheio, assim como a outros a quem a coisa não correu bem.

Independentemente das intenções com que se profere, tem contido um conceito com forte ligação à influência dos factores sorte/azar.

“… hoje não havia peixe”, ou, “o peixe não queria comer”.

Neste caso, porque o peixe habita e come no mar, ou o pesqueiro foi mal escolhido, ou o fundeio mal efectuado, ou o peixe queria outras iscas/formatos de iscadas, ou ainda, desistiram de pescar antes da hora do peixe ficar activo a comer.

Pode acontecer, por exemplo, na época de desova/acasalamento das Douradas, atendendo a que, em determinada hora, de determinado dia, enquanto os bichos estiverem a tratar da “vidinha” deles, não comem. Certo é que, com marcações de sonda ricas de actividade, não raro, só começam a comer a determinadas horas do dia, mas como andam por ali e não querem ser incomodadas, os peixes miúdos são “chutados” e também não comem. Para todos os efeitos, esta é outra frase típica onde é forte o crédito nos conceitos relacionados com os factores sorte/azar.

Mas ainda mais engraçado é que habitualmente, quando um pescador “carrega” de peixe, tende a achar que sabe muito, e até explica como foi; tem o melhor material do mundo e usou da melhor forma a única e melhor tratada isca. Se a coisa correr mal, na maioria dos casos, este mesmo pescador atribui o seu desaire aos factores sorte/azar.

Fica a questão: então se soube tanto quando capturou, como é que sabe tão pouco quando se verificou o contrário?

Muitas outras frases se ouvem, atribuindo culpas a quem comanda o barco, ao material, ao lugar em que pescou no barco, mas, de forma recorrente, raramente se ouve um pescador assumir que hoje não lhe correu bem porque acha que falhou, aqui ou ali, se desinteressou, não soube reagir a adversidades, fez tudo igual a muitos outros dias, num dia diferente, em suma, assumir a sua falta de conhecimento sobre os peixes, os pesqueiros onde actuou, a adequação de iscas e materiais face às condições de mar e vento que se apresentaram e um conjunto de outros factores.

Certo é que o conhecimento sobre determinados assuntos, só se consegue adquirir quando a nossa atitude for assumir que desconhecemos e, a partir daí, estudarmos, observarmos, perguntarmos, praticarmos, testarmos, modificarmos, e assim sucessivamente, repetindo os ciclos de aprendizagem, ao longo da vida.

Caso o não façamos, vamos baseando a nossa pesca essencialmente na qualidade e quantidade de materiais que vamos adquirindo, continua e compulsivamente, deixando aos factores sorte/azar a grande fatia sobre o controlo dos resultados da nossa pesca.

Face ao descrito e tentando alinhar pensamentos, parece-me existirem duas grandes áreas onde devemos investir no sentido de melhorar a nossa pesca:

– Conhecimento
– Atitudes e Comportamentos

Conhecimento:

Tentando ordenar, em termos de áreas, deixo-vos a minha opinião sobre o conjunto de conhecimentos, entre outros (nunca são demais), que se devem tentar adquirir, e continuamente melhorar:

– Tipologia de fundos e razões da sua relação com a visita e/ou permanência das espécies que procuramos, em épocas determinadas, o que farão deles zonas de pesqueiros, ou não.

– Comportamento das espécies que se procuram, tendo em conta alimentação, acasalamento e relação entre profundidades e épocas mais produtivas.

– Adequação de iscas naturais, mortas ou vivas, ou artificiais, tendo em conta espécies a capturar, pesqueiros onde se actua, técnica de pesca em uso e momento de determinada jornada.

– Aquisição e adequação de materiais, para além de modas e marcas, tendo em conta as funções que devem cumprir em cada técnica utilizada, simplificando-os o mais possível, sempre considerando os factores de conhecimento anteriores.

A ordenação e divisão das quatro áreas acima referidas não querem dizer que estão divididas ou que deverão ser abordadas à vez, e por ordem. Estão directamente relacionadas, não têm fronteiras e devem ser consideradas interdependentes no processo de aumentar os nossos conhecimentos, tanto teóricos, quanto práticos, sobre as mesmas.

Vejamos exemplos práticos:

Considerando a presente época e, mais uma vez, a pesca direccionada às Douradas, deveremos procurar dominar, em simultâneo, um conjunto alargado de conhecimentos, como sejam:

Tipos de fundo, profundidades, comportamentos da espécie ao longo da acção de pesca, iscas, iscadas, materiais, técnicas em uso, e, muito importante, como aplicar tudo isto, nos locais e à hora certa, face às condições de mar e vento que se apresentarem logo de início, tendo em conta que poderão alterar-se ao longo da jornada, influindo negativa ou positivamente no pesqueiro ou zona de pesqueiros onde se actua, sendo que tal poderá obrigar a alterações de fundeio, de técnica e eventualmente de iscas e formatos de iscadas.

Por exemplo…, sem aguagem, as Douradas poderão pairar em fundos entralhados, junto às bases de estruturas rochosas, mais ou menos importantes, e até sobre os seus bicos, abrindo um leque de opções e técnicas, todas elas passíveis de bons resultados.

Na presença de aguagem, e dependendo da sua intensidade, é natural que os comportamentos se modifiquem, normalmente com os peixes a abrigarem-se dos efeitos desta ou a utilizarem-na em deslocações para locais que entendam mais propícios, sendo que neste caso as nossas iscas deverão actuar nesses locais, ou nas zonas de deslocamento.

Num dia que começa sem aguagem, e em que a determinada altura esta entra, ou vice versa, é quase certo que teremos de alterar algo, tanto no caso de estarmos fundeados, quanto no caso de estarmos à deriva ou “rola”. Mas serão sempre os resultados e os toques do peixe, ou ausência deles, os indicadores da necessidade de alterações.

Considerando o exemplo supra, que em si já indicia a necessidade de aquisição dos conhecimentos referidos, e não só no que a Douradas se refere, sem dúvida que as nossas atitudes, ao longo de uma jornada de pesca, a que chamo positivas, entre outras possíveis, deverão ser de:

– Constante observação.

– Constante reflexão e análise.

– Constante concentração na acção de pesca.

– Constante abertura a melhorar fundeios, alterar derivas ou mudar de zona de pesqueiros, se assim o acharmos necessário, bastando para tal que, pela relação entre capturas não conseguidas, toques ou ausência deles, deixemos de acreditar no pesqueiro ou zona onde actuamos.

– Constante abertura a mudar de técnica e consequentemente adequar iscas, iscadas e materiais, tendo em conta, o puro teste, ou o que achamos que estará a acontecer face à ausência de resultados conjugada com alterações significativas das condições de mar e vento. assim como movimentações de embarcações em acção de pesca muito próximas de nós.

Neste processo, devemos esquecer conceitos do tipo:

– Hoje não há peixe.

– O peixe não quer comer.

– Hoje não é o meu dia.

Se não conseguimos capturar, então foi porque não soubemos escolher o pesqueiro, fundear e/ou derivar correctamente, usar as iscas certas e iscadas no formato adequado. Eventualmente não teremos usado o material da forma mais correcta, ou não soubemos adequar todas as variáveis referidas ao estado do mar e do vento, enfim… precisamos ir mais, conhecer mais, e não nos dispersarmos unicamente no que é mais normal…, as discussões intermináveis sobre o material em uso – a única coisa que conseguimos ver fora de água – já para não falar da sorte e do azar.

Na verdade, quando se procurar conhecer, versus suportar insucessos e sucessos nos factores sorte/azar, ou unicamente no material em uso, vão sentir-se, a curto médio prazo, alterações significativas nas nossas “Atitudes e Comportamentos”. Isto porque na medida dos conhecimentos adquiridos, verifica-se a tendência para a organização de processos dinâmicos que, permitindo-nos relacionar opções com resultados obtidos, promovem a regularidade no que respeita a conseguirmos capturas das espécies que procuramos. Umas vezes mais… outras menos.

Como habitual, gosto de fundamentar as reflexões e análises que vou produzindo, com relatos que penso, as fundamentam.

Vamos a eles!


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