Chumbada





Texto e Fotos: SÍLVIO SANTOS

No seguimento do 1º artigo sobre chumbadas realizado pelo Filipe Cintra, vamos agora atravez do Silvio Santos aprofundar mais um pouco este “mito” que é as chumbadas e as suas cores … será importante?

Sem pensar muito, responderia que não é importante, pois há vários outros factores com superior relevância na pesca embarcada a que devemos dar mais importância. Mas se quisermos fazer a diferença, principalmente no que diz respeito à competição, onde um pequeno peixe pode ser o suficiente para a obtenção de uma melhor classificação, devemos considerar todos os factores que podem influenciar o resultado das nossas capturas. O domínio destes factores passa por conhecer algo que os nossos adversários não sabem, dispondo assim de uma vantagem. Estes conhecimentos pertencerão cada vez mais a quem compreender o mundo sensorial dos peixes, entendendo em termos básicos, o que o peixe faz e porquê. Por experiência pessoal posso dizer que não é tarefa fácil atingir este objectivo, porque é necessário abandonar conceitos bem instalados.

Primeiro conceito: errado!

Um dos conceitos errados é que os peixes sentem o seu mundo como nós humanos o sentimos quando nadamos debaixo de água. É costume nós pescadores estabelecermos uma certa semelhança entre os nossos sentidos e os sentidos do peixe, o que é um erro. Os peixes são vertebrados, ou seja, são animais com esqueleto como nós, que partilham também connosco o desenho geral do sistema nervoso, no entanto, existem diferenças consideráveis na forma como reunimos e processamos a informação sensorial.
De facto, os peixes possuem os mesmos sentidos que o ser humano – visão, tacto, paladar, olfacto e audição. Sendo o olfacto e a audição os seus sentidos mais apurados. Um órgão sensorial específico dos peixes é a linha lateral, normalmente formada por uma fiada longitudinal de escamas perfuradas através das quais corre um canal que tem ligação com o sistema nervoso. Aparentemente, este órgão tem funções relacionadas com a orientação, detecção de vibrações e é também uma espécie de sentido do olfacto através do qual os peixes reconhecem as características da água como a temperatura, salinidade e outras. Mas o sentido que nos interessa para tentarmos responder á questão de fundo é a visão.

Os peixes são todos iguais: errado!

A análise deste sentido pode levar-nos os mais conceitos errados e um deles é que um peixe é um peixe, igual a outro peixe. É verdade que um peixe tem sempre algumas características iguais a outro peixe, mas há muitas outras particularidades que distinguem uma espécie de outra. Não podemos considerar todos os peixes como um conjunto, e pensar nele como um só indivíduo. Porque a variedade de peixes é imensa e a sua percepção das cores e acuidade visual varia muito conforme as espécies, géneros e famílias a que pertencem. Existem assim diferentes capacidades visuais entre os peixes.











Ao fazer-se uma pesquisa na literatura existente sobre estudos feitos com os peixes, no que concerne à forma de detecção de luz visível reflectida e como transformá-la em imagens cromáticas do seu meio externo, verifica-se uma escassez de trabalhos e estudos nesta área, que nos possam esclarecer. Mesmo os poucos dados publicados apresentam algumas contradições que impedem uma clara compreensão sobre a visão cromática, isto é, visão a cores dos peixes. De qualquer das formas ao pesquisar e estudar os poucos trabalhos que existem sobre a visão dos peixes, já deu para ficar com uma ideia generalizada sobre o que os peixes vêm e o que não vêm, para poder descrever nas linhas que se seguem de forma mais ou menos fácil de compreender o que os cientistas sabem sobre o assunto.

O eterno princípio

A luz que os seres humanos vêem é apenas uma pequena parte do total de radiação electromagnética que é recebida do sol, nós vemos o que é chamado de espectro visível. As cores reais dentro do espectro visível são determinadas pelo comprimento de onda da luz. Os comprimentos de onda mais longos são o vermelho e o laranja, os comprimentos de onda mais curtos são verde, azul e violeta.
Segundo dados científicos, pode-se dizer que o aspecto mais importante relativamente à percepção das cores no meio marinho, é a influência da própria água na atenuação da luz. Quando a luz entra na água perde a sua intensidade rapidamente e ocorrem mudanças nas cores, ficam atenuadas. A atenuação da luz deve-se à sua dispersão e absorção. A dispersão da luz é provocada pelas partículas em suspensão na água, quanto maior a quantidade de partículas maior a dispersão da luz. A absorção é causada por vários factores, um deles é a luz se transformar em calor, ou então ser usada pelos seres vivos em reacções químicas como a fotossíntese. A quantidade de absorção é diferente para diferentes comprimentos de onda da luz, em outras palavras, as várias cores são absorvidas de forma diferente. Os comprimentos de onda mais longos, como vermelho e laranja, são absorvidos mais rapidamente do que os comprimentos de onda mais curtos como o verde, azul e violeta. Dados científicos disponíveis da biologia marinha, afirmam, sem grandes considerações que as espécies que normalmente vivem e comem a profundidades superiores a 20/30 metros, não distinguem a maior parte das cores, em particular o vermelho. Normalmente a cor vermelha dos peixes, existe precisamente para camuflagem, já que o vermelho mesmo em condições muito favoráveis, não passa dos 20/30 metros de profundidade. A partir daí, ou seja dessa profundidade, é o azul que predomina, pelo que todas as cores na gama do azul, violeta e ultra violeta são visíveis para a maior parte dos peixes de profundidade. Por isso é que alguns produzem luminescências e iridescências para serem vistos. Outros, são vermelhos porque não há radiação vermelha em profundidade e são invisíveis.

Visão multicolor… à superfície

Já os peixes que vivem e comem desde o fundo até perto da superfície e os peixes que vivem a pequenas profundidades, terão uma visão multicolor. Normalmente neste caso os peixes são coloridos para serem vistos, ou são cinzentos porque querem passar despercebidos.
A visão é o sentido dos peixes menos apurado. Neles, os olhos estão geralmente colocados na parte lateral da cabeça, dispondo de campos visuais e movimentos independentes. Possuindo um músculo refractor, que se insere directamente sobre a lente e puxa-a para trás e para frente, o olho do peixe capta imagens, que caem inteiramente na lente, de formato esférico, dotado de alta densidade óptica. A firmeza da lente impede os peixes de flexionarem a esfera e de alterarem sua curvatura, para efeito de focalização, como ocorre normalmente com outros vertebrados superiores. A distância entre a lente e a retina é modificada pelo músculo refractor, característica que confere miopia a quase todas as espécies. Embora possam distinguir movimentos com grande facilidade, vêem os objecto de forma imperfeita. Como disse anteriormente as espécies que vivem na superfície são dotadas de maior capacidade visual, tendo inclusive noção de cores, mas são incapazes de reconhecer a diferença entre um peixe verdadeiro e outro artificial, originando-se desse facto o sucesso proporcionado pelas iscas artificiais. Parece que estes peixes percebem mais ou menos distintamente as cores, mas não distinguem bem os contornos dos objectos e muito menos o relevo. Nós, quando fixamos a vista sobre um objecto, recebemos nos olhos, duas imagens independentes, que se conjugam, dando a impressão de relevo ou de três dimensões, com perspectiva. Como em geral os peixes têm olhos dispostos em planos diferentes e, quase sempre em posições opostas (um de cada lado do corpo), eles têm a visão de apenas duas dimensões, isto é, apenas do plano, ao passo que dominam um campo visual muito mais vasto.

Ao contrário da maioria dos vertebrados o cérebro do peixe primariamente processa o sentido olfactivo antes de todas as acções voluntárias

A OPINIÃO DE…

JOSÉ LUIS COSTA (www.pesca-embarcada.com)

As chumbadas são um elemento essencial na pesca embarcada, existem ainda muito pescadores que pensão… “desde que leve a pesca para baixo tá bom”… mas na realidade não é bem assim.
Senão vejamos, com correntes fortes é necessário usar chumbadas mais pesadas, mas as mesmas também são necessárias se existir peixes indesejados a meia água como a cavala, boga e os carapaus, em relação às cores, muitos pescadores gostam de usar cores variadas como o branco, vermelho, amarelo, etc. para atrair os peixes, eu pessoalmente a minha cor preferida vai para o preto porque acho que é a cor mais discreta e assim, uma das melhores formas de conseguir enganar o tal peixe desconfiado tentando passar despercebido e camuflado ao máximo, não quero dizer com isto que não use por vezes o vermelho e branco para tentar atrair aquelas espécies curiosas por natureza, mas nestes casos é mais na competição onde muitas vezes é necessário pontuar com peixes que no dia a dia não desejamos capturar. Prefiro também que sejam revestidas a plástico ou borracha para que crie o menos atrito na hidrodinâmica da descida e assim seja mais rápida, pois a nossa pesca só captura peixes se estiver assente no fundo marinho, além disso, está mais do que provado que os ruídos de origem metálica afugentam o peixe mais desconfiado.

A primeira conclusão

Posto isto, e se cruzar a informação disponível com o conhecimento empírico, ou seja, a experiência que adquiri na pesca desportiva, posso dizer que a chumbada, não terá grande poder de atração nos peixes que desejamos capturar na pesca embarcada. Mas pelo contrário tem grande atração nos peixes que consideramos indesejáveis, isto claro se eles estiverem presentes no nosso pesqueiro. Porquê? Porque como referi anteriormente os peixes que têm melhor visão e capacidade de distinguir cores, são na pesca embarcada os que menos valor damos, e na competição muito menos, não são pontuáveis e fazem-nos perder tempo precioso. Estamos a falar de cavalas, bogas e carapaus, estes peixes normalmente encontram-se mais elevados em relação ao fundo marinho e por isso a sua visão evoluiu de forma que as cores lhes sejam perceptíveis, desde que as condições de luz o permitam.

São peixes que identificam cores claras como possível alimento e são atraídos por elas, por isso nestas alturas deveremos utilizar uma chumbada de cor discreta, como o cinzento, o preto ou então outras cores que não tenham grande contraste na água. Por outro lado em circunstâncias em que a profundidade do pesqueiro não passe dos 15 ou 20 metros e a água não atenue muito a luz, como o caso de encontrarmos águas muito lusas, com uma intensidade de luz favorável e a ausência das espécies indesejáveis, poderemos nestas circunstâncias e se o peixe não estiver desconfiado, utilizar uma chumbada com uma cor que o atraia. Cores claras que sejam da cor ou com reflexos iguais aos iscos que utilizamos serão na minha óptica as mais indicadas, nestes casos as chumbadas fluorescentes têm obtido bons resultados. Se o peixe estiver mais desconfiado aconselho o uso de chumbadas com cores mais discretas que se confundam com o fundo marinho, como o cinzento, castanho, verde-escuro, preto, etc.

Mas na realidade…

Considerando tudo o que foi dito até aqui, na realidade poderá não ser bem assim, porque estamos só a considerar o sentido da visão para justificar as ações do peixe. Uma curiosidade que pelos vistos é comum a quase todas as espécies de peixes do mundo é que, ao contrário da maioria dos vertebrados o cérebro do peixe primariamente processa o sentido olfativo antes de todas as ações voluntárias. Esta informação deve ser considerada muito importante por nós pescadores, porque, por outras palavras, o peixe não efetua nenhuma acção, sem que detecte os cheiros à sua volta, e deverá ser por aí que devemos interpretar os movimentos e ações do peixe juntamente com o outro sentido que tem mais apurado que é a audição.

Para concluir, e como referi no início deste artigo, devemos considerar todos os factores como importantes, mas também devemos manter os nossos sentidos numa expectativa realista. Quero com isto dizer que os peixes não podem ir para além das suas possibilidades, e que o mais importante é jogar com as características das áreas sensitivas mais fortes dos peixes, não devemos depositar muita confiança nos factores que despertam os seus sentidos mais fracos. O peixe reage mais fortemente nas áreas de maior sensibilidade. Aprenda ao que o seu peixe alvo reage melhor e assim pode escolher as melhores soluções. Tente ver as coisas do ponto de vista do peixe, sem influências emocionais, pois o peixe não possui a capacidade neural das emoções. Por exemplo, ao considerarmos as cores, se o peixe vê uma determinada cor e se sente atraído, é porque essa cor tem uma aplicação prática na sua existência diária e não porque ele gosta da cor pela sua natureza emocional ou por ser a sua cor preferida.

Se o peixe vê certa cor e se sente atraído é porque esta tem aplicação prática na sua existência diária e não porque gosta dela emocionalmente

Uma questão “bicuda”

Devemos tentar perceber de uma forma mais apoiada pela ciência estas questões que se levantam. Neste caso, a questão da luz e da cor da chumbada e a sua influência na nossa pesca, é sem dúvida uma matéria controversa e complicada. A nossa inteligência é uma das grandes vantagens que possuímos no confronto com estes belos animais que são os peixes. Por isso, devemos explorar ao máximo a vantagem de termos estes conhecimentos ao nosso alcance. Como alguém disse a sabedoria não ocupa espaço, e em muitas situações no dia a dia é-nos muito útil. Devemo-nos informar o melhor possível acerca dos protagonistas do nosso passatempo ou desporto que é a pesca desportiva. O peixe tem muito que nos ensinar, ou melhor, nós pescadores temos muito a aprender com ele. Na pesca e na vida nunca conseguiremos saber tudo, pois como diz o ditado que tão bem se aplica na perfeição à pesca e à vida em geral – “Estamos sempre a aprender e morremos sem saber”.


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