Vestuário de Inverno




Texto: Filipe Cintra

Fotos: Autor e Arquivo

O PRIMEIRO CUIDADO

Primeiramente, não podemos esquecer que um dia no mar de Inverno difere de um outro dia qualquer, isto porque no Inverno nem sempre conseguimos sair. Mas, quando conseguimos, somos normalmente brindados por dias excepcionais. A ausência total de ventos durante todo o dia torna estas jornadas de pesca inesquecíveis.

Mas existe um contra: apesar de muitas vezes não haver vento, pode sempre haver o que chamamos ‘vaga malandra’, que provoca um baloiçar constante da embarcação.

Esta situação pode ser bastante desagradável, muito mais para quem tem problemas de enjoo. Por isso, se sofre desse problema, não se esqueça de tomar as providências necessárias, pois caso contrário, o que devia ser um dia maravilhoso tomar-se-á um dia de tortura e quem já passou por isso sabe bem o que é estar no mar num estado de enjoo permanente.

O VESTUÁRIO

Outro grande factor que faz com que a pesca de Inverno seja mais desagradável é o frio, assim roupa adequada ao momento fará toda a diferença, porque não há nada pior do que estarmos desconfortáveis num dia passado a umas milhas da costa. Como em todas as modalidades de pesca e/ou noutras realizadas ‘outdoor’, devemos ter roupa apropriada, nada de «Quanto mais roupa, mais quente estarei» — isso é atitude do passado. Além de parecermos uns autênticos ‘chouriços’, vestir muita roupa trará outros inconvenientes, como a falta de liberdade de movimentos ou a execução das tarefas imprimindo maior esforço. Seremos muito menos eficazes na nossa pesca. Na minha opinião, deveremos escolher vestuário simples mas quente (do tipo polar) para depois sobrepormos outro impermeável, ou seja, roupa leve por baixo de umas calças com alças e respectivo casaco impermeável (com forro interior, de preferência). O calçado deverá também ele ter forro interior e, como estamos a falar de pesca embarcada, deverá ser sempre impermeável pois mesmo que esteja um dia de sol, como todos sabemos, a bordo de um barco há sempre salpicos, há aquele balde que se entorna, ou seja, há sempre aquela água indesejada que nos molha os pés, e que caso usemos calçado normal corremos sempre o risco de não desfrutar a 100% de um belo dia de pesca… apenas porque logo no início do dia encharcamos os pés e, como é óbvio, ficaram gelados. Um gorro ou algo do género também se torna importante, não nos podemos esquecer que a nossa cabeça é que comanda o resto do corpo e se tivermos frio na cabeça, esse facto irá reflectir-se com certeza por todo o corpo.
Existe também quem opte por usar luvas. Eu, pessoalmente, não uso, pois na minha opinião esse artefacto retira-nos das mãos um dos factores mais importantes da pesca, que é a sensibilidade.
Resumindo: roupa leve e quente por baixo de um conjunto impermeável com forro interior de preferência, calçado adequado e um gorro que nos aqueça a cabeça.

DE VIAGEM
Já bem equipados, é hora de ir para o mar. Após tudo bem arrumado e acondicionado, entramos mar adentro. Evite fazer a viagem até ao pesqueiro ser estar abrigado: se não conseguir lugar na cabine (se esta existir), então pelos menos tente abrigar-se da deslocação do ar. Muitas vezes vemos pessoas à proa, em dias de muito frio, a levar com essa mesma deslocação do ar na cara, com a desculpa de que «é para acordar». Esta atitude fará com que o frio se apodere mais depressa no corpo e, a partir desse momento, será muito mais difícil tornar a aquecê-lo. Várias vezes assisti a este procedimento por parte de alguns companheiros, facto que depois se reflecte quando chega altura de pescar, sendo muito natural ouvir frases como «Eh pá, parece que hoje nada me sai bem» ou «Estou tão gelado que só de me mexer parece que me vou partir ao meio». Resumindo e concluindo, o frio já de si é nosso inimigo, por isso, combata-o, reduzindo ao máximo as hipóteses de ele o afectar.

As saídas de mar são mais curtas no Inverno, mas nem por isso menos empolgantes, muito pelo contrário. Devido às condições climatéricas, o peixe anda por esta altura mais solto, menos desconfiado e com um apetite mais voraz.

AS MONTAGENS

Entretanto chegamos ao pesqueiro, a sonda marca muito e bom peixe, vai ser um dia daqueles! Será mesmo? Entra agora em jogo toda a sua sabedoria.
Se em relação à cana e ao carreto tudo se mantém igual, o mesmo não se poderá dizer de tudo o resto. Há que aproveitar o Inverno, isso quer dizer, aproveitar as águas mais tapadas e o apetite mais voraz do peixe. Se com águas limpas temos de pescar o mais fino possível, agora é então altura de tentarmos pescar com anzóis maiores e fio de espessura superior. Comecemos então pela madre da montagem. Ao contrário de outras alturas do ano, em que estas andam na casa dos 0.26 aos 0.30 mm (para não dizer menos), agora podemos pescar ‘mais grosso’. Pessoalmente, no Inverno faço as minhas montagens com fios na casa dos 0.30 aos 0.40 mm, e a utilização de fluorocarbono ou não depende muito das profundidades em questão, bem como o grau de transparência da água em tal dia e local.

OS ESTRALHOS
Pelas mesmas regras se seguem os estralhos. Aqui, tudo depende do que se vai à procura. Se estamos a falar de pesca ligeira, eu pessoalmente faço montagens de três anzóis em que o estralho de baixo é constituído por um anzol maior do que os de cima (n.° 1 ou 1/0) e com um fio de medida muito próxima da madre (0.01 mm ou 0.02 mm abaixo), enquanto os dois estralhos de cima são compostos com anzóis n° 2 ou n.° 3 e com fio 0.05 mm (aproximadamente) abaixo do que estou a usar na madre. Esta minha opção, da diferenciação de espessura de estralhos e tamanhos de anzol, deve-se essencialmente ao facto de os maiores exemplares ‘atacarem’ maioritariamente nos estralhos de baixo. Se, ao invés deste tipo de pesca, o peixe de maior calibre é o nosso alvo preferencial, então opto por montagens de apenas dois anzóis e com fios de maior dimensão, na casa dos 0.40 ao 0.50 mm para a madre, e dos 0.33 aos 0.40 mm para os estralhos, mas depende muito do que vamos à procura. Os anzóis não devem ser menores do que um 1/0 ou 2/0. Os estralhos deverão também eles ser mais compridos, na casa dos 40 a 50 cm.

AS CHUMBADAS
Em termos de chumbadas, aí teremos de analisar bem as condições momentâneas e ter sempre à mão vários pesos, entre 100 e 200 gr. Maioritariamente, isto será o suficiente, excepto se pescarmos em zonas, como há várias no País, com correntes marítimas que se façam sentir com maior força. É muito natural durante um dia de pesca de Inverno começar com 120 g, depois ir mudando para chumbadas de 180/200 gr e posteriormente ir voltando à gramagem inicial. Isto deve-se, essencialmente, às correntes de fundo que apesar de também as podermos sentir noutros períodos do ano, é no Inverno que mais se fazem sentir.

AS VANTAGENS
Pescar no Inverno possibilita-nos também pescar muito mais próximo da costa, o que é sempre vantajoso. Senão, vejamos: é menos tempo que se perde nas viagens (ida e volta), é menos combustível que se gasta e, além disso, é uma oportunidade para capturamos outras espécies mais costeiras. Um dos principais factores que nos possibilitam pescar nesta altura do ano, em sítios mais próximos de terra, é o facto de os peixes andarem mais vorazes e muitos terem abandonado as suas tocas para se alimentarem. Por sua vez este facto deve-se aos mares revoltos próprios da estação, que movem areias e sedimentação e assim levantam muito alimento. Mas nem tudo são rosas, temos de ter em atenção que cada espécie tem o seu ciclo de vida. Se, por exemplo, é mais natural capturar um belo sargo legítimo, daqueles que têm a dentição bem negra, se as safias ou mesmo as choupas de calibre maior comem como em nenhuma outra altura do ano ou se até mesmo um belo robalo pode acudir às nossas iscadas, por outro lado, existem peixes — como as bicas — que por estas alturas andam mais escassas.

CONCLUSÃO

Em suma, é tudo uma questão de nos adaptarmos à realidade actual: os dias são mais curtos, o frio abunda, as águas são mais turvas, o reboliço dos temporais levantam comida, o peixe encosta mais a terra e come com mais à vontade. Então do que está à espera? Vai ver que um dia de Inverno pode proporcionar-lhe muitas alegrias.

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