Imagens de Sonda – Terminologia e Termos Utilizados

Texto: Ernesto Lima
Fotos: Autor

A leitura de imagens de sonda e todo um conjunto de matérias relacionadas carecem da descodificação de alguns termos que se costumam utilizar, nomeadamente quando nos referimos a rumos tomados ou tipo de fundo dos pesqueiros escolhidos.

Nas próximas linhas Ernesto Lima traduz e explica algumas destas terminologias que recorrente-mente ouvimos dentro e fora de um barco de pesca.

Grande parte destes termos são “bebidos” em conversas intermináveis com pescadores de muitos mares, não vou dizer que os termos que utilizo são os mais correctos e muito menos os únicos… Pura e simplesmente foram os que quase inconscientemente elegi, talvez de tanto os ouvir repetir.

Passo a descodificar os termos que utilizo quando me refiro a rumos que sigo do porto para um pesqueiro ou entre estes, rumos esses que na maioria dos casos não têm correspondência totalmente verdadeira com a Rosa-dos-Ventos da imagem inicial.

Vejamos então:

Ir para a terra: aproximar de terra em linha perpendicular a esta.
Ir para fora: afastar de terra em linha perpendicular a esta.
Ir para Norte: rumar paralelo à terra para o lado de Norte sem ter em conta o Norte verdadeiro (0º).
Ir para Sul: rumar paralelo à terra para o lado de Sul sem ter em conta o Sul verdadeiro (180º).

Um exemplo utilizando estes termos poderá ser:
“Saí do pesqueiro que se apresentava pouco produtivo e rumei a um outro, onde há muito já não ia, mais a Sul e à terra”.

Isto quererá dizer:
O novo pesqueiro procurado, encontra-se para os lados de Sul e mais perto de terra que aquele onde estava antes da decisão de mudança.

O PONTÃO

Os termos utilizados são uma forma de conversação que se destina essencialmente a dar uma ideia da zona para onde se rumou e não um rumo certo de bússola.

Os tipos de fundos que hipoteticamente constituem pesqueiros, têm também eles várias denominações, dependentes das vivências e hábitos das comunidades piscatórias profissionais e lúdicas, pelo que, como já referi, poderão ter variações significativas em cada zona.

Para melhor identificar a relação entre os termos e o tipo de fundo correspondente, vou tentar ilustrá-las com imagens de sonda, sendo para tal, talvez necessário falar um pouco sobre os sentidos figurados das imagens que se apresentam.

Como podem ver, o ecran está verticalmente dividido ao meio, sendo que a metade do lado direito representa o fundo tal e qual a sonda o mostra e a do lado esquerdo, uma ampliação (zoom) do primeiro.

A zona que está por baixo do barco é a que se pode ver mais encostada a cada lado direito de ambas as partes divididas. Tudo o que está para a esquerda de cada parte é fundo sobre o qual já passámos.

Importa agora entender o que significam as pintas, linhas, cores e números que aparecem.

A linha castanho avermelhada, com alguma espessura, representa o fundo do mar e quanto mais grossa for, mais rochoso ou duro será o fundo sobre o qual estamos.

A zona por baixo dessa linha muito sarapintada de amarelos, com alguns azuis e uma ou outra pinta alaranjada, representa os ecos transmitidos que identificam a textura por baixo do fundo, sendo esta tanto mais rochosa quanto mais laranjas e até vermelhos aparecerem por baixo dela.

A zona azul por cima da linha de fundo representa a coluna de água, sendo esta a cor menos intensa, pelo que se aparecer por baixo da linha de fundo, representará um fundo macio.

As pintas em aglomerados que aparecem sobre a linha de fundo e encostadas à elevação que começou a aparecer, serão peixes ou outros organismos, indicando-nos que há vida por ali.

Quanto aos números que aparecem, vejamos:

– O número grande (46.4), no canto inferior direito do ecran, indica a profundidade em metros sobre a qual estamos no momento.

– Os números a branco que se vêem em cada uma das partes do ecran são a escala em metros ao longo da coluna de água.

Se retivermos os sentidos figurados descritos, ou seja, linha de fundo, zona que está por baixo do barco, profundidade, relação da intensidade das cores com o tamanho dos peixes ou aglomerados destes e a dureza dos fundos, poderemos então dizer:

A primeira imagem de sonda indica que navegámos sobre um fundo relativamente macio, a 50 metros de profundidade que veio endurecendo até chegar a uma elevação, neste momento a 46,4 metros, apresentando-se neste caminho alguma vida na zona de 50 metros onde passámos e a normalmente habitual intensidade de vida junto à elevação que denomino por “pontão”.

Porque se pode afirmar isto?

Olhando da esquerda para a direita (sentido em que navegamos) de cada uma das partes divididas de ecran , pode ver-se:

– As cores por baixo da linha de fundo passaram do azul claro para o amarelo indicando aumento de dureza de fundo.

– Na zona sobre a linha de fundo coincidente com o aparecimento de amarelos por baixo desta, aparecem sinais pouco intensos (por serem azuis e verdes claros) de peixe ou vida que se interrompem até chegar ao pontão sobre cuja parede ou “beirada” nos encontramos.

– Viemos de um fundo de 50 metros e o “pontão” já mostra 46,4… Vamos ver até onde sobe!?

O LIMPO E A BEIRADA

Parece poder dizer-se que, com base nas identificações anteriores, se poderão agora descodificar alguns dos termos utilizados por aqui, com menos palavreado.

Assim vejamos:

A imagem seguinte, quanto ao tipo de fundo, costuma ser denominada por “limpo”. Porquê?

A linha de fundo não é muito espessa e por baixo dela é tudo azul clarinho o que indica um fundo macio e pouco interessante.

A próxima foto, identifica a “beirada” dum “pontão”, sendo que o peixe que se mostra agarrado à parede e numa bola relativamente homogénea em termos das pintas que a coloram, por se encontrar disposto de forma muito regular e com cores pouco intensas, não costuma indiciar uma zona muito produtiva em termos de capturas. Podemos ainda ver que no fim da “beirada”, junto ao fundo, os sinais de peixe interrompem-se. Este é um fundo onde eu não gastaria tempo, atendendo a experiências anteriores.

Ainda relativamente à foto acima, tudo seria diferente se os sinais de peixe continuassem, mesmo pouco intensos, junto ao fundo e após o fim da “beirada”. Aí sim… Era para tentar! Também, se fossem sinais mais espalhados, irregulares e de cores intensas junto ao fundo, para a pesca aos diversos ou para peixe maior, e, na “beirada”, justificando zagaia ou isca viva; não querendo com isto dizer que não se deva tentar estas técnicas mesmo com sinais pouco intensos, sendo que as probabilidades de sucesso têm-se evidenciado menores.

OS “ENTRALHADOS”

Falemos agora de “entralhados”! O que são? Costuma-se designar por “entralhado”, um fundo misto de rocha ou detritos acumulados e areia, quase sem variação de profundidade, mas onde aparecem concentrações de peixe por vezes importantes. Este tipo de fundo pode encontrar-se relativamente perto de “pontões”, já na zona de algum “limpo” próximo ou completamente isolados no meio de um “limpo”, sem pontões por perto.

Neste caso, poderá indicar que algo se afundou por ali ou que esse limpo pode não ser tão limpo quanto parece, podendo acontecer estarmos sobre uma zona rochosa que areou muito e num local mais alto terá desareado.

Esta imagem identifica um desses tipos de fundo percebendo-se, pelos amarelos que vão dando lugar a azuis abaixo da linha de fundo, a passagem de uma zona mais dura para uma zona mais macia. Este é um fundo em que mesmo com sinais pouco intensos, deveremos testar, principalmente se os sinais estiverem muito encostados ao fundo.

A “CETOMBA”

O último termo de que hoje se falará é a “cetomba”, do qual, infelizmente, não há ilustração por imagem mas algo se há-de arranjar! Vejamos!

Imaginem que vão a navegar por cima de um fundo de 50 metros (exemplo) sem variações de profundidade, sondando com toda a atenção… A cor por baixo da linha de fundo é azul e sinais de peixe ou vida, nem vê-los, estão a passar em cima dum “limpo”!

Continuam… E, de repente começam a aparecer, abaixo da linha de fundo, uns amarelos assim como algum sinal de vida acima da linha de fundo. Os amarelos aumentam e aparecem alguns laranjas que antecedem o surgimento de um “pontão” elevado aos 39 metros. Os sinais de peixe não são do Vosso agrado e querem ver o que está para o lado de lá… Passam o bico mais alto e vão vendo a “beirada” oposta sobre a qual navegam até atingir de novo os 50 metros.

Continuam… Passam sobre uns “entralhados” que só reconhecem porque o aparecimento de azuis por baixo da linha de fundo já se mesclam com os amarelos de fundo mais rijo, mantendo-se assim durante algum tempo, com sinais de vida pouco intensos. A profundidade foi entretanto aumentando para os 51… 52… E, de repente, um fundo que parecia pouco interessante cai quase abruptamente para os 55 metros de profundidade e começa a mostrar sinais que já merecem fundear o barco, sinais estes que se mantém durante uns 50 ou mais metros de navegação, embora o fundo seja quase “limpo”.

Meus amigos… A isto costumo chamar uma “cetomba”!

Uma queda mais ou menos abrupta em terreno limpo ou quase mas que, devido ao escolho que forma, tende a tornar-se um depósito de comedias, trazidas pelas correntes e marés, passíveis de formarem a base de uma cadeia alimentar que se concentra na zona e da qual só vamos querer capturar os Superpredadores!

PARA CONCLUIR…

Os termos utilizados e as descrições terão algumas variações mas, essencialmente, estas são as que utilizo.

Importa ainda referir que as cores que se adoptam nas imagens de sonda dependem da configuração que cada um escolhe para a sua, sendo necessário que assegurem um contraste importante entre a água, as pintas identificadoras de peixe e o fundo, para melhor visualização de pormenores.

Quanto às sondas a preto e branco, as variações de cores vão de menos escuro para mais escuro, assim como os aglomerados e tamanho dos peixes que se podem verificar pelo amontoado ou dispersão de pontos.

Não vou dizer que os termos que utilizo são os mais correctos e muito menos os únicos… Pura e simplesmente foram os que quase inconscientemente elegi, talvez de tanto os ouvir repetir.


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