Robalos ao Trolling

Para os Robalões!

Texto: Joaquim Malaquias
Fotos: Autor

Venho abordar uma técnica de pesca pouco falada, talvez por não estar ao alcance de todos, visto ser praticada a partir de uma embarcação, e que tem como principal objectivo capturar o rei da nossa costa, o robalo.

Se tem barco e se quer aprofundar estes conhecimentos não pode saltar este artigo…

O corrico embarcado costeiro, ou trolling (não confundir com o corrico de altura, ou big game, dirigido aos grandes pelágicos) é uma modalidade que na nossa costa tem como principal objectivo a captura de um dos peixes mais apreciados pelos pescadores desportivos, o robalo! Embora em certas ocasiões possamos ter o encontro com corvinas e alguns tunídeos.

É claro que por vezes podemos ser brindados com capturas de outras espécies que não se fazem rogadas em atacar as nossas amostras, como é o caso de pequenos tunídeos, anchovas, corvinas, cavalas, agulhas, etc., todos são bem-vindos! Quanto mais não seja pela diversão que nos proporciona a captura em si.

Esta técnica consiste em, literalmente, rebocar com uma embarcação, uma ou mais amostras a uma velocidade constante e reduzida, normalmente entre um e quatro nós e esperar pacientemente pela picada destes predadores.

Como e onde explorar?

As zonas a explorar são as do costume para os robalos; zonas de encontros de correntes, zonas de fundos acidentados, seja com rochas, sejam canais mais profundos, sejam cabeços submersos, zonas de estuário e desembocaduras de rios, estruturas submersas, etc.

Neste processo uma sonda e um GPS são aliados poderosos que nos permitem perceber o tipo de fundo onde estamos, onde se encontram os peixes e marcar os pontos onde são feitas as capturas.

Um outro aliado de peso do pescador de trolling são as aves marinhas quando entram em frenesim, a mergulhar freneticamente; são um sinal claríssimo que anda por ali comedia e por arrasto, onde há comedia, há predadores!

Neste caso aconselho vivamente a parar por momentos o trolling e tentar fazer umas passagens “à rola” (deriva), junto da zona onde detectámos a actividade, e pescar ao spinning ou mesmo ligth jigging com pequenas zagaias ou vinis lastrados. Temos que ter em atenção a colocação do barco para a deriva porque não queremos passar no meio da zona de actividade, mas sim ligeiramente ao lado, a uma distância que se consiga pescar, mas sem estar mesmo no meio da confusão para não afugentar os peixes.

Nunca é demais recordar que a segurança deve vir sempre em primeiro lugar. É de evitar zonas de rebentação, onde um set que venha maior ou a rebentar mais fora que os restantes pode causar situações muito complicadas. É de evitar também zonas com muitos afloramentos rochosos a pouca profundidade e pedras ilhadas.

Qualquer toque numa dessas pedrinhas, por vezes bastante afiadas, pode mandar-nos a pique. Há que usar o bom senso e não correr riscos desnecessários!

Disposição das linhas em acção de pesca

Neste tipo de pesca, podem ser utilizadas várias linhas em acção de pesca ao mesmo tempo. Sendo o nosso principal objectivo o robalo, as amostras devem trabalhar a uma distância considerável da embarcação para que os peixes não se sintam intimidados pelo ruído, vibrações e turbulência causados pelo motor. Essas distâncias podem ser superiores aos 100 metros e nunca inferiores a 50 (salvo raras excepções). Outra vantagem é que quanto mais linha tivermos dentro de água, mais natural é a natação e a apresentação das nossas amostras.

As linhas

No que diz respeito às linhas, as opiniões variam bastante e, em última análise, pode acabar por ser um gosto pessoal. Há quem seja adepto incondicional dos monofilamentos devido à sua elasticidade e capacidade de amortecimento das investidas do peixe. Por outro lado há os adeptos dos multifilamentos (aos quais eu pertenço) e neste caso as vantagens são o sentir melhor as vibrações transmitidas pelo trabalhar da amostra e uma ferragem mais rápida, se bem que aqui seja quase sempre o peixe a ferrar-se.
No meu caso, costumo usar no carreto uma linha multifilar entre o 0,19 e o 0,23mm e uso também uma baixada de três ou quatro braças de um bom monofilamento. O objectivo desta baixada é dar alguma elasticidade à montagem e, por outro lado, também a quase invisibilidade da linha junto à amostra, que pode fazer a diferença no caso de o peixe andar mais “desconfiado”.

Normalmente utilizo um 0,35mm de boa qualidade, que é suficiente para a maioria das situações. Se necessário, pode aumentar-se o diâmetro da linha para um 0,40 ou 0,45mm, se por exemplo os alvos forem animais de maior porte, como as corvinas.

Temos que ter em atenção que ao utilizar multifilamentos, a embraiagem do carreto deverá estar um pouco mais aberta para conseguir suportar as ferragens que podem ser bastante violentas e uma embraiagem muito fechada pode significar a linha partida e uma amostra e peixe perdido devido à falta de elasticidade da montagem.

Fig. 1
As amostras devem trabalhar pela popa da embarcação a distâncias diferentes para evitar enleios quando a embarcação descreve uma curva. Pelo menos 20 metros de diferença entre elas.
No caso das amostras utilizadas trabalharem a profundidades diferentes, a amostra que afunda mais, tem obrigatoriamente que trabalhar mais perto da embarcação. Desta forma, ao mudar de direção, as linhas cruzam-se mas sem nunca se tocarem.

Fig. 2
As linhas que pescam mais “fora” deverão ser as mais distantes (e por consequência as menos afundantes) e as mais ao meio, as mais curtas (e pela lógica as mais afundantes).

As amostras

Teoricamente, tudo o que possa provocar um ataque de um robalo pode ser utilizado. O objectivo é, tal como no spinning ou no corrico de costa, imitar uma presa em fuga e/ ou ferida e em dificuldades. Amostras mais ou menos afundantes, rígidas ou vinis, de plástico ou balsa, inteiras ou articuladas, e com um tamanho que pode variar entre apenas os seis ou sete centímetros até amostras maiores e mais encorpadas com 17, 18 centímetros ou mais, dependendo do que os robalos andam a comer.

As amostras com palas grandes e que nadam a profundidades de quatro, cinco, seis metros ou mais, que de terra se tornam impraticáveis, são neste caso utilizadas com grande sucesso.

Como em outras modalidades de pesca com artificiais, as cores variam conforme as condições da água e luminosidade. É mais ou menos senso comum que com águas limpas e bastante luz, utilizam-se amostras mais pequenas e cores claras e realistas – as chamadas “cores naturais”. Com águas tapadas e luminosidade reduzida, utilizam-se amostras que podem ser ligeiramente maiores, mais “barulhentas”, e com cores vivas e contrastantes.

Vale tudo!
Não é uma ciência exacta!

Fig. 3
A mais simples de todas as montagens:
A amostra ligada à linha por meio de um clip para que seja mais prático e rápido o trocar de amostra. O clip com ou sem destorcedor é à vontade do freguês e depende do gosto pessoal de cada um.

Fig. 4
Uma variante da anterior:
Nesta montagem, coloca-se uma ou duas amostras do tipo cação, pingalim ou mesmo outro tipo de amostra pequena de vinil, montadas directamente no leader.
Deve deixar-se uma distância de cerca de um metro, da amostra aos cações, sendo que os cações ficam separados entre si cerca de 30 a 40 centímetros.
Esta montagem funciona como um factor extra de excitação para os robalos, que interpretam como pequenos peixes a fugir de um outro predador. Isto leva o robalo a atacar por competição e para não deixar que o outro predador apanhe o peixe em fuga. Devido a isto, na maior parte das vezes, o ataque produz-se nos cações, mas não são raras as duplas.

Fig. 5 e 6
Nova variantes da anterior:
Desta vez recorremos a dois estralhos, que são unidos à linha madre por intermédio de um destorcedor duplo.
Aqui temos que ter em atenção que o estralho dos cações tem que ser mais curto que o da amostra, para produzir o efeito de perseguição descrito anteriormente e também para evitar enleios. Por exemplo, se o estralho da amostra tiver 1,5 metro, o dos cações deve ter apenas um metro.

Montagens simples

Como forma de diferenciar os diversos tipos de montagem, vamos denominar de “montagens simples” aquelas que vão pescar, afundando somente com a acção das amostras, sem qualquer auxilio de pesos ou afundadores.
O tamanho da pala da amostra e a sua configuração ou inclinação vão determinar a profundidade a que vamos pescar, podendo esta variar desde a superfície até vários metros. Temos assim que adequar a amostra à profundidade desejada. A sonda revela-se uma ajuda preciosa neste processo, aumentando exponencialmente as probabilidades de sucesso.
As amostras são montadas directamente na linha, sozinhas ou com teaser, recorrendo a estralhos ou em tandem, etc…
A imaginação do pescador é o limite, desde que se embarquem uns cabeçudos.

Montagens lastradas

Por vezes só a pala da amostra não é suficiente para a fazer mergulhar até a profundidade pretendida onde se encontra o peixe. Como tal, é necessário faze-las chegar mais fundo com a ajuda de lastros ou profundizadores.

Fig. 7
Nesta montagem é colocada uma chumbada com um tipo de engate específico que se aperta na linha sem necessidade de recorrer a nós e que permite que, durante a luta com o peixe, ao chegar a chumbada junto da cana, esta seja retirada rapidamente e assim continuar a recuperação do peixe. A chumbada será mais pesada à medida que a profundidade que se pretende alcançar aumenta e deve ser colocada a uma distância de 10 a 15 metros da amostra.

Fig. 8
A montagem aqui mostrada só com cações pode também ser utilizada com outro tipo de amostra na ponta. É utilizada uma chumbada e um estralho que derivam de um destorcedor duplo que está preso na madre. A chumbada é montada numa baixada de linha que pode ter até um metro. Essa linha deverá ter uma resistência e diâmetro inferior a todo o resto do aparelho, para que em caso de prisão no fundo, a linha funcione como fusível e se perca apenas a chumbada, sendo assim possível recuperar o resto da montagem. O estralho onde são montadas as amostras deverá ter um comprimento nunca inferior a 10 ou 15 metros.
É uma montagem utilizada principalmente para corricar com aparelhos de mão, uma vez que se utilizarmos uma cana, a ultima parte da recuperação tem de ser feita à mão, tornando-se pouco prático.

Fig. 9
Utilização de um downrigger consiste em utilizar um cabo com um peso de dimensões consideráveis (pode ir até vários quilos) e com uma pinça de pressão onde vai ser presa a linha do carreto. Este sistema permite-nos colocar com bastante precisão a amostra a um determinada profundidade onde o peixe se encontra. Quando se dá a picada, a linha solta-se da pinça e o combate com o peixe é feito normalmente sem peso adicional na linha.

Fig. 10 e 11
Utilização de um Paravane ou Trolling Board.

O Paravane é um dispositivo que permite colocar a montagem a uma determinada profundidade recorrendo a um peso muito inferior ao utilizado com o downrigger.

Basicamente, o princípio do seu funcionamento é o mesmo da pala das amostras. É o seu ângulo de inclinação que o faz mergulhar até uma determinada profundidade.

Na Fig. 10 podemos ver uma montagem para ser utilizada com um aparelho de mão, pela mesma
razão explicada na Fig. 8, em que o estralho onde é colocada a amostra é preso diretamente ao Paravane.

O estralho nunca deverá ter menos de 15 metros.
Na Fig. 11 – podemos ver a utilização do Paravane com uma pinça de pressão. O seu funcionamento vai ser idêntico ao descrito na Fig. 9 com o downrigger.

Aliado do pescador são as aves marinhas, quando entram em frenesim, a mergulhar freneticamente

Canas e carretos

Para este tipo de pesca, não creio que seja necessário canas específicas “XPTO” e carretos capazes de rebocar um cacilheiro, afinal vamos aos robalos, não aos marlins!

Uma cana de spinning com uma acção heavy ou medium-heavy, com alguma potência de reserva no blank e com comprimento compreendido entre os dois e os três metros será suficiente para lidar com maior parte das situações.

Alguns poderão estar a pensar:
“Três metros não serão grandes demais?”. Não, pois se estivermos a pescar com mais de duas linhas dentro de água, esse comprimento extra vai dar jeito para que as amostras trabalhem mais afastadas umas das outras.

Quanto aos carretos, convém que tenham alguma qualidade para aguentar sem torções o muito atrito e muita tracção que as amostras vão colocar na linha, mas tamanhos entre 5000 e 8000 (“bitola” Shimano), são mais do que capazes de dar conta do recado. Tudo o que passar disto, em termos de canas e carretos, com certeza que pescam mas vão retirar-nos e muito, o prazer da captura e a adrenalina da luta que tanto gostamos.

Outros acessórios

Não esquecer um chalavar de dimensões generosas ou um bicheiro, porque às vezes as capturas são de bom tamanho e a última coisa que queremos é ter problemas a embarcar o peixe.

Uma corvina muito grande pode ser uma dor de cabeça…

Um grip para agarrar e manusear o peixe enquanto desferramos as fateixas evita acidentes como anzóis espetados nos dedos e cortes provocados pela afiadíssima placa do opérculo dos robalos. Um alicate de pontas compridas para retirar anzóis e fateixas.

Concluindo…

Devo dizer que tão ou mais importante que tudo isto é passar muitas horas por cima de água, navegar muitas milhas, conhecer os locais, as marés, os hábitos dos peixes e perceber o que funciona melhor. O que funciona num sítio pode não funcionar noutro e vice-versa. Nas montagens há que experimentar e testar soluções diferentes e por vezes inventar a nossa própria solução. Por vezes é isso que faz a diferença.

O autor com um par
de corvinas que
sucumbiram a esta
técnica. Está à
espera de quê?


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