Engodar ao Fundo!

Texto: Ernesto Lima
Fotos: Autor e Arquivo

A aprendizagem parece depender de um conjunto de factores que se relacionam. Nomeadamente, o interesse de quem quer aprender, o gosto por ensinar de quem o pretende fazer, a capacidade de raciocinar sobre aquilo que se houve ou se lê, a vontade de descobrir para além de tudo isto, os meios utilizados em todo este processo…, e, provavelmente, muitos outros, que de momento não me ocorrem.
Resumindo, teremos que ouvir, entender, desconfiar, elaborar o nosso pensamento em torno da questão que se nos colocar, e, experimentar… experimentar muito, abrindo sempre a nossa mente ao que previamente ouvimos e aos resultados das experiências concretizadas sobre o assunto do nosso interesse.

Agora poderão os leitores perguntar: mas que raio é que isso tem a ver com engodar ao fundo para pescar mais e melhor (maior), em embarcação fundeada? Para tentar responder, tenham paciência e acompanhem-me no seguinte raciocínio.

Se estamos a pescar ao fundo, parados no mesmo lugar, o engodo terá de cumprir funções relacionadas com a atracção dos peixes, que pretendemos capturar, ao local que escolhemos.

Depreende-se portanto, que o local deverá ser adequado às espécies que buscamos, cumprindo o engodo uma de duas funções, ou ambas: atrair directamente a referida espécie ou atrair em primeiro lugar pequenos peixes dos quais a tal espécie se alimenta.


Em ambos os casos, as iscas e as montagens a utilizar deverão adequar-se às respectivas espécies; por exemplo:

– No primeiro caso poderemos estar a falar de Besugos ou Douradas, engodando com caranguejo e sardinha, em separado ou conjuntamente, iscando com iscas mais pequenas para o besugo e, preferencialmente, com caranguejo para a dourada.

– No segundo caso poderemos estar a falar de pargos, engodando com sardinha, cujo cheiro intenso se propagará a longas distâncias “chamando” este nosso “amigo” e, simultâneamente, poderá atrair peixe miúdo cujo frenesim, em torno do engodo, criará outra fonte de atracção, quer para o pargo quer para outros predadores, através da estimulação do sentido vibratório que é, no senso comum, um dos sentidos mais desenvolvidos na maioria dos peixes. Neste caso, poderemos utilizar, como isca, a própria sardinha inteira ou em troços grandes, cavala fresca morta ou viva, caranguejo vivo, choco, lula, polvo; tudo com dimensões consideráveis, pois este animal parece francamente interessado em mesa farta.

Considerando o palavreado anterior, será talvez lógico referir que o engodo não deve funcionar como alimento – para isso estão lá as iscas, e o engodo não leva anzol – nem posicionar-se para além das iscas no sentido da aguagem, se esta estiver presente, ou em qualquer outro sentido que afaste o peixe das nossas “ofertas”.

Decorrente do anterior raciocínio, parece poder afirmar-se que é importante controlar o local onde se coloca o engodo, sob pena de estarmos a criar um pesqueiro muito bom para alguém, ou ninguém, certamente para o peixe e dificilmente para nós.

Não nos esqueçamos que poderemos estar a pescar a distâncias consideráveis do fundo.

Pode ainda dizer-se que no caso de aguagens adversas, por exemplo para a proa do barco, é talvez preferível escolher um bom fundo e não usar engodo nenhum, recorrendo, neste caso, ao aumento do número de iscas lá no fundo e a alguma paciência, o que, muito sinceramente, é da minha preferência.

Mas adiante… chegámos ao local, sondámos, gostámos, iniciámos a pesca; e, ao fim de algum tempo, a coisa não está a funcionar. Então sim… verificamos que não existe aguagem ou que a dita vai num sentido que nos permite fundear engodo e colocar as iscas na linha de atracção entre este e o peixe. É tempo de recorrer a meios de fundear engodo que permitam o controlo do mesmo. Para tal, podemos analisar, entre outros, os dois engenhos que se podem observar na foto, os quais passo a identificar.

Engenho da esquerda:

Constituição:

Tubo de PVC, de 9 cm de diâmetro, com 50 cm de comprimento, usado nos esgotos de casas de banho, com furos de 5 mm a toda a volta e as tampas usuais roscadas, uma fixa e outra móvel, servindo a fixa de fundo e a móvel de tampa roscada para abrir e fechar.

Modo de fazer chegar ao fundo (entre outros):

Aplicar chumbadas pesadas ao fundo do engenho, tendo em conta que a aguagem não o deverá trazer para cima das nossas linhas de pesca.

Ligar a um enrolador montado com fio de meada de monofilamento de 2 a 3 mm de diâmetro.

Encher do engodo escolhido, cortado em 5 ou 6 pedaços, e largar pela proa ou ao longo do cabo de fundeio (utilizar um mosquetão), dependendo da aguagem existente, e, chegado ao fundo, elevar a +/- 5/10 metros.

Para que os sumos da sardinha vão sempre saindo, deve usar-se um outro peso, com 0,5 a 1kg, cilíndrico, colocado por cima desta dentro do engodador. Este peso, para além de espremer a sardinha ajuda a afundar o engenho.

Vantagens:

  • Não alimenta peixe grande.
  • Supostamente congregará o peixe miúdo à sua volta (o meu tem marcas de dentinhos!)
  • Parece relativamente fácil de entender a posição, controlando a inclinação do fio que o sustenta, caso esteja amarrado à proa ou ao meio do barco.

Desvantagens:

  • O tempo que leva a descer e principalmente a subir, em profundidades consideráveis.
  • As desvantagens relacionadas com a porcaria que faz o engodo a colocar e a retirar!
  • Mais adequado para engodos que levem bastante tempo a consumir o respectivo cheiro.
  • Risco significativo de se emaranhar com um peixe grande quando este levar muita linha. Já me aconteceu!

Nota: vi este engenho a trabalhar pela primeira vez, em Lagos, utilizado pelo meu amigo Carlos Cruz para engodar ao besugo em fundos brandos… e funcionou!

Engenho da direita:

Constituição:

  • Saco de plástico pequeno (padaria).
  • Aperta-se o fundo e amarra-se com monofilamento, deixando-se uma alça.
  • A zona do nó anterior deverá ser envolvida com tela forte autocolante, para melhorar a hidrodinâmica. Deixar a abertura do saco bem solta e aberta.

Modo de fazer chegar ao fundo:

  • Aplicar, num estralho curto, à rabeira montada, como se fosse o anzol de cima.
  • Encher o saco a meio com o engodo escolhido, soltar o fio do carreto, agarrar o saco fechando a respectiva boca (a do saco! Não a nossa!) e largar a linha para o fundo deixando que o hidrodinamismo mantenha o saco fechado, devido ao envolvimento da água originado pelo movimento de descida (evitar paragens na descida).
  • Ao chegar ao fundo, eleva-se e baixa-se a cana várias vezes com grande amplitude, assegurando que o engodo se espalha em torno das nossas baixadas e deixa-se a cana a pescar com isca no anzol de baixo, ou retira-se e pesca-se com outra.

Vantagens:

  • Bom controlo da zona de queda do engodo, especialmente em dias sem aguagem.
  • Facilidade de subida e descida, devido à pequena oposição exercida contra a água.
  • A pesca utilizada, para descer o engodo, pode ficar a pescar, já que o elemento saco de plástico, para o peixe, supostamente aliará a sua chegada ao alimento.

Desvantagens:

  • Possibilidade de afastamento do engodo e consequentemente do peixe caso exista aguagem significativa.
  • Se nos descuidarmos, poderemos estar a alimentar demasiado o peixe.
  • Dificuldade de saber até que ponto, em determinadas situações/dias, o saco de plástico assusta ou põe de sobreaviso o peixe, atendendo à sua proximidade com as iscas.

Nota: sistema utilizado por todos ou quase todos os pescadores de Sines, para quase todo o tipo de pesca ao fundo e a meia água.

Após tanta descrição importa referir que: prefiro, de longe, não ter que utilizar nada disto. No entanto, principalmente na pesca do Besugo, em fundos brandos, e da dourada, pode ser a diferença entre um dia de “nada” e um dia de “tudo”.

No caso da dourada, na época em que esta se encontra fundo, como já referi na entrada “Eu e as Douradas”, penso que se ninguém engodasse, todos os que lá estivessem apanhariam peixe. Elas estão lá e querem comer.

Tróia

Algumas considerações:

Voltando à introdução inicial deste artigo, penso ser mais lógico e testado o presente raciocínio que o que se lê sobre atirar engodo pela borda do barco, em fundos de 40 e 50 metros, em zonas de corrente de maré. Principalmente, se o dito for constituído por cascas de canivetes.

Se formos a ver, os “Besugos da Barra” vão e vêem com a maré e querem comer, ou então, não era engodando assim que os apanhavam!

Compreendo que a vontade de ensinar é forte, em muitos companheiros que se dedicam a escrever sobre a nossa actividade, mas penso que quando mostramos muitas certezas, sobre determinados assuntos, a pessoas que confiam em nós ou através de meios supostamente fiáveis, podemos estar a induzi-las em erro, já que esta nossa actividade é um manancial de incertezas.

Cumprimentos a todos os leitores.


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